O Elefante já conhecia quase todos os caminhos da savana.
Sabia onde a água descansava depois das chuvas, onde a terra rachava no calor, onde a sombra chegava mais cedo e onde o vento trazia cheiro de perigo.
Tinha vivido muito, perdido muito, aprendido muito.
Ainda assim, numa manhã dourada, fez ao pequeno Pássaro uma pergunta que lhe pesava no peito:
“Por que os velhos amigos são tão especiais?”
O Pássaro pousou num galho baixo e ficou olhando o Elefante com ternura.
“Porque eles se lembram de partes suas que o mundo esqueceu.”
O Elefante não entendeu de imediato.
O Pássaro continuou:
“Um amigo novo conhece sua força.
O velho amigo conhece suas quedas.
O amigo novo admira sua presença.
O velho amigo sabe quantas ausências você precisou vencer para continuar de pé.
O amigo novo vê o tamanho do seu corpo.
O velho amigo guarda o tamanho da sua história.”
O Elefante abaixou a cabeça, tocando a relva com a tromba.
Lembrou-se de antigas travessias, de rios difíceis, de noites frias, de companheiros que caminharam ao seu lado quando ele ainda não era sábio, nem sereno, nem forte como parecia.
Lembrou-se de quem o viu errar sem deixar de amá-lo.
De quem esperou seu passo lento. De quem reconheceu sua tristeza antes que ele dissesse qualquer palavra.
“Então os velhos amigos são memória?”, perguntou.
“São mais do que memória”, respondeu o Pássaro.
“São testemunhas.
Eles provam que você não nasceu pronto.
Eles viram sua alma sendo escrita aos poucos.”
O Elefante fechou os olhos. Pela primeira vez, compreendeu que certas amizades não envelhecem.
Apenas criam raízes mais fundas.
E, desde aquele dia, sempre que encontrava um velho amigo, não dizia apenas “que bom te ver”.
Dizia em silêncio:
“Obrigado por ainda saber quem eu fui, enquanto eu aprendo quem posso ser.”
(De um Autor desconhecido, apresentado pelo incomparável Irmão CHICO).